
1 - Só Deus sabe há quanto tempo ela está lá. De um lado o oceano. Do outro as montanhas. Quase uma dádiva, estanque, firme, forte, serena, solidária e solitária entre incontáveis grãos de areia e trazendo o sentimento de paz que ele sempre sentiu ao vê-la. E só Deus sabe quantas pessoas passaram por ela, quantas sentiram exatamente a mesma coisa. E quantas ainda sentirão.
Este, o sentimento de estar em paz, que ele tanto procurou e começou a encontrar no momento em que lhe firmou os olhos pela primeira vez numa manhã de inverno.
De certa forma, ao toca-la, ele sente que tudo que viveu no ano anterior lhe trouxe até ali. Pois, de todos os erros e acertos que cometeu, glórias e tristezas que sentiu, de todas as decisões, das mais simples às que lhe tiravam o sono a noite, de todas as manhãs em que resolveu não levantar ou levantou mais cedo, de todas as bebidas que resolveu beber, pessoas que decidiu ver e frases que resolveu dizer ou vezes que permaneceu calado, tudo se combinou, como um enredo previamente escrito a que estivesse vinculado, e que naquele momento conseguia enxergar com uma clareza absurdamente cristalina. Ele sente que tudo que viveu no ano anterior lhe trouxe até ali. Uma obra fantástica do acaso.
Mas o garoto não acredita no acaso. Pelo menos não no acaso puro e simples. E não foi por acaso que o garoto acabou ali, assim como não foi por acaso que aquela, dentre todas as árvores do planeta, lhe trouxe paz.
Ele a viu apenas duas vezes. Desnecessário dizer que foi o suficiente. Quase como se ela fosse suas boas vindas e seu adeus. Um ritual de passagem, por assim dizer.
E na despedida, a árvore fez questão de coloca-lo frente a frente com seu maior medo. Quase como se dissesse “Abra o olho garoto. Dei-lhe a paz que tanto procura, e sempre será bem vindo, mas este será teu futuro, se não se cuidar”. Era realmente o maior medo dele. O irremediável medo que ele sente de esquecer o presente por viver relembrando o passado. O irremediável medo de virar aquele velho que ao pé de uma árvore, ao som de uma música significativa e previsível, ao relento de uma bebida, chora por saudade de seu passado, sozinho por causa das decisões que tomou, ou tomaram por ele. É o maior medo do garoto. E continua sendo.
E cada dia longe daquela velha árvore é um passo a mais para perto deste futuro que tanto lhe intimida. O garoto teme já ter se tornado aquele velho quando a encontrar de novo. Verdade seja dita, ele às vezes sente que já se tornou.
2 – Eles se conheceram ainda crianças e cresceram juntos. É impossível descrever a importância que provavelmente um teve na vida do outro. Consigo lembrar de cara que se salvaram inúmeras vezes, embora não percebessem isso à época. Tiveram algumas brigas, como toda amizade, mais pela incapacidade do garoto em tolerar e entender certos comportamentos do que pela real inconveniência de seu amigo inseparável.
Igualmente impossível descrever a falta que ele faz na vida do garoto hoje. E que certos dias ele se pega rezando para que tudo esteja bem com seu amigo, onde quer que ele esteja. Se pega fazendo, silenciosamente, algumas das confidencias que só tinha com ele. Às vezes o garoto chora por saber que poderia ter sido mais amigo de seu amigo. Às vezes sente falta até das velhas manias que seu velho companheiro possuía.
E embora não sinta falta dele todos os dias, pela sua real incapacidade para se lembrar daqueles que o amaram de verdade e pelos contratempos do dia-a-dia, são nos dias em que o garoto se lembra de como eram. Que ele deseja ser um pouco mais como seu amigo, e um pouco menos como ele mesmo.
Foi num fim de tarde de um fim de outubro, no fim de uma vida, que o garoto visitou esta árvore. E a reconheceu à primeira vista, assim como a todas as outras árvores que lhe importam. A viu apenas uma vez, embora tenha prometido voltar. E aquela árvore, entre tantas outras, adquiriu um significado que somente o garoto e o seu amigo conhecem.
Ali, no meio de tanta tristeza e lágrimas, quiseram o garoto e seu amigo que um local de descanso significasse mais do que simplesmente um último repouso. Que fosse uma última homenagem, embora não solene, à vida, à amizade, e às coisas que ambos gostavam. Ali, aos pés da vida, descansa o amigo de uma vida inteira. E que a uma vida trouxe felicidade e que por uma vida inteira fará falta.
3 – É importante ressaltar que nem sempre o garoto foi assim. Houve uma época em que sua perspicácia, entusiasmo, audácia e atitude eram invejáveis. Naquele momento, ao se olhar para ele, diriam facilmente que ele poderia se tornar quem ele quisesse, quando quisesse. E embora fosse apenas uma criança, o garoto poderia abraçar o mundo facilmente, pois o mundo era pequeno para ele.
Então algo aconteceu. O que e quando, exatamente, nem ele sabe. E o garoto foi perdendo o gosto por se arriscar. Acomodou-se nas inúmeras zonas de conforto que ele mesmo criou. Trancou-se em uma cela que se fez intransponível e simplesmente jogou a chave fora.
E embora o garoto de outrora, da solidão de sua prisão gritasse por ajuda, chorasse pelas oportunidades que “a nova administração” perdia e tentasse desesperadamente empreender fuga, a fortaleza, com o passar dos anos, se tornou grande demais para aquele que já fora, um dia, maior do que o mundo. Mas eventualmente, sabe-se lá como, um sopro de lucidez saia da prisão em direção a quem detinha o comando, dizendo-lhe para agir. E, infelizmente, exatamente nestes momentos, tragédias ocorreram.
Não pelos conselhos do prisioneiro, mas pela absoluta incompetência de seu carcereiro. Isso só o fez se trancafiar mais e mais. E de fato, o tempo passou e oportunidades se perderam por puro medo de tentar.
O garoto então conheceu uma árvore. E olhando do alto de sua prisão, através da névoa que a cerca, reconheceu nela sua última oportunidade de fugir. Diziam que a árvore possuía poderes mágicos, e que se ele a trouxesse sempre com ele, não haveria coisa que neste mundo ou em qualquer outro, que não pudesse fazer.
Arquitetou seu plano e cuidou para que a árvore estivesse sempre com ele. Maquiou sua verdadeira intenção sobre outros sinais e que dessa forma não fosse possível que ninguém, além dele mesmo, soubesse do que se tratava. Arquitetou seu plano. E aguardou o momento oportuno.
Sua fuga se deu dias antes da despedida da árvore que lhe trouxe paz e durou dois inesquecíveis meses. E embora o garoto reconheça a importância da árvore com poderes mágicos que traz sempre consigo e sua força de vontade para escapar de sua prisão, foi a mão de outra pessoa que lhe resgatou e foi de outra árvore, a seiva que o libertou.
4 – A árvore se ergue onde ninguém esperaria encontra-la. Sob e sobre o concreto, cercado das mais diferenciadas extravagâncias que um lugar como aquele pode oferecer está um último, solene e desconhecido totem a quem resgatou o garoto de sua prisão.
Vários prestaram suas homenagens nesta árvore, pelos mais diferenciados motivos, e o garoto gosta de pensar que aqueles que gravaram seu nome para sempre em seu tronco alcançaram exatamente o que queriam. E o engraçado é que justamente ele, de todas as pessoas, nunca o fez. E se culpa até hoje por isso.
Infelizmente, hoje o garoto está a uma vida inteira de distância (que nem sempre é física, devo dizer) da árvore e da pessoa que o resgatou. A vida é assim, caminhos são unidos tão facilmente quanto se separam. Não cabe a nós questionar tudo o que aconteceu e nos levou até aqui. O que podemos fazer é sentar, relaxar e aproveitar a viagem, certo? Isso nos trás de volta ao acaso, e, se o garoto acreditasse no acaso, seria mais fácil para que ele aceitasse que tudo não passou de um grande jogo de dados. Mas, ele não acredita no acaso, lembram?
De certa forma, o garoto acredita que as coisas não deram certo exatamente por não ter prestado sua homenagem. E de certa forma ele acredita que se um dia voltar a ver esta árvore, se por um segundo sequer ele conseguir prestar sua homenagem, da forma como planejaram, tudo voltaria ao normal. Ele se libertaria novamente de sua prisão, honraria a vida de seu amigo e não acabaria se tornando o seu maior medo. Ele a teria de volta.
Então me digam, meus caros, há como culpa-lo? Porque é exatamente tudo isso que a árvore e quem ela representa significam para o garoto. Coisas que o ele havia esquecido ou se forçado a esquecer. Coisas que o garoto nunca achou que conseguiria fazer. Medos que deixou para trás.
Significa a redenção depois da culpa sufocante, o culto a uma vida simples que ele desconhecia e que com ela aprendeu. A coragem para viver tudo que a vida nos tem a oferecer sem o medo que lhe prendia. O foco para identificar quem você está destinado a ser e a coragem para que consiga sê-lo. Mesmo nas coisas mais simples.
ao som obrigatório de Bob Dylan - Girl from the North Country
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